E se o património também pudesse cuidar de nós?

E se o património também pudesse cuidar de nós?


Há algum tempo que penso na relação entre o corpo e os espaços que habitamos. Não apenas a nossa casa, a rua por onde passamos todos os dias ou a natureza, mas também aqueles lugares que guardam histórias e que, muitas vezes, visitamos de uma forma quase automática.
Entramos num museu, vemos as peças, lemos as informações, seguimos o percurso e saímos. Aprendemos qualquer coisa sobre aquilo que vimos. Mas será que alguma coisa aconteceu também no nosso corpo?
Foi uma pergunta que comecei a fazer-me e que acabou por dar origem ao Corpo e Património.

No yoga aprendemos a prestar atenção. Ao corpo, à respiração, à forma como nos movemos, mas também ao espaço que nos rodeia. Nem sempre precisamos de fazer alguma coisa. Às vezes, estar verdadeiramente presente já muda a experiência.

Foi também a partir da minha própria experiência com o yoga que comecei a olhar para os espaços patrimoniais de outra forma. O yoga ensinou-me a estar mais atenta ao que acontece enquanto fazemos, mas também ao que acontece quando paramos. E comecei a pensar que talvez esta forma de estar pudesse dialogar com lugares que, habitualmente, visitamos apenas para conhecer a sua história.

Nos últimos anos, esta relação entre cultura e saúde tem começado a ser levada a sério noutros países europeus. Em Bruxelas, por exemplo, existe desde 2022 um programa de “prescrição museal”, através do qual profissionais de saúde podem recomendar aos seus pacientes visitas gratuitas a museus parceiros. A iniciativa nasceu de uma colaboração entre a área da cultura e profissionais de saúde, incluindo o departamento de Psiquiatria do CHU Brugmann.
Não é apenas uma ideia interessante. Em 2025, um estudo publicado na Frontiers in Medicine analisou o efeito de uma visita a um museu prescrita por um médico e encontrou melhorias no bem-estar mental e na qualidade de vida dos participantes. É uma área que ainda precisa de mais investigação, mas começa a existir evidência para aquilo que, de alguma forma, já intuímos: os lugares onde estamos e as experiências que temos também podem fazer parte da nossa relação com a saúde.
A ideia não é substituir um tratamento por uma visita a um museu. Nem tão pouco dizer que a cultura resolve problemas de saúde. É reconhecer que o nosso bem-estar não depende apenas do que acontece numa consulta ou daquilo que tomamos. As experiências que temos, os lugares onde estamos e a forma como nos relacionamos com os outros também fazem parte da nossa vida.

E um museu pode ser um desses lugares.
Há qualquer coisa de interessante nesta mudança de olhar. Um espaço que foi pensado para preservar e mostrar património pode também ser um lugar de pausa, de atenção, de encontro e de experiência.

Foi a partir daqui que comecei a pensar: e se, em vez de levarmos apenas o olhar para esses espaços, levarmos também o corpo?
É isso que estamos a experimentar com o Corpo e Património.
Não queremos transformar um museu numa escola de yoga. Nem retirar aos espaços patrimoniais aquilo que os torna únicos. A ideia é precisamente o contrário: perceber o que acontece quando diferentes formas de estar no corpo encontram um lugar com uma história própria.

O movimento, a respiração, a atenção, o som e o silêncio podem ajudar-nos a olhar para um espaço de outra maneira. Talvez mais devagar. Talvez com mais atenção aos pormenores. Talvez simplesmente com a possibilidade de estar ali sem termos de cumprir um percurso ou chegar a uma conclusão.

O projeto nasce também da vontade de olhar de outra forma para o património que temos perto de nós. Viseu tem lugares com histórias, edifícios, museus e espaços que fazem parte da nossa identidade. Muitas vezes conhecemo-los, mas nem sempre temos oportunidade de os viver de outras maneiras.

No dia 30 de agosto vamos dar o primeiro passo deste projeto, em Viseu.
Será uma experiência que junta património, movimento e bem-estar. A sessão de yoga será conduzida por mim, Raquel Iglésias, e termina com uma sessão de sound healing conduzida pela Sofia Bernardo.

A participação é gratuita, mediante inscrição.

Para mim, esta primeira sessão é sobretudo uma oportunidade para experimentar. Para perceber o que acontece quando deixamos de separar tanto as coisas: o corpo de um lado, a cultura do outro, o património num lugar e o bem-estar noutro.
Talvez não precisemos de escolher.
Talvez um espaço possa ser, ao mesmo tempo, um lugar onde aprendemos sobre o passado e onde paramos um pouco no presente.
E talvez seja aí que começa uma relação diferente com o património.

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